Trauma, tempo e ligações (quânticas) invisíveis

 

Uma reflexão entre a psicologia e a física contemporânea

(Artigo escrito por Carlos Lopes, com a preciosa colaboração da inteligência artificial ChatGPT)




Há uma pergunta que atravessa a psicologia, a filosofia e até a física moderna:

Como é que algo que aconteceu há muitos anos, noutro lugar, continua a influenciar tão profundamente a vida de uma pessoa no presente?

À primeira vista, parece um paradoxo temporal. O passado já passou. O espaço mudou. As circunstâncias são outras. E, no entanto, o corpo reage, a emoção surge e o sofrimento reaparece como se tudo estivesse a acontecer agora.

Na física quântica existe um fenómeno intrigante chamado emaranhamento: duas partículas que interagiram no passado permanecem correlacionadas, mesmo quando separadas por grandes distâncias. O estado de uma continua a estar ligado ao estado da outra.

Embora não exista evidência científica de que o trauma psicológico seja literalmente um fenómeno quântico, a analogia é poderosa e surpreendentemente elucidativa.


Trauma: quando o passado não fica no passado

Um trauma não é apenas uma memória desagradável. É, antes de tudo, um estado neurofisiológico que não foi integrado no tempo.

Quando ocorre um evento traumático, o cérebro entra em modo de sobrevivência. A amígdala assume o controlo, o corpo prepara-se para lutar, fugir ou congelar, e o sistema que organiza as memórias no tempo falha parcialmente. O acontecimento não é devidamente arquivado como passado.

O resultado é simples e devastador:
👉 o trauma não é lembrado, é revivido.

É por isso que um estímulo aparentemente inofensivo no presente pode desencadear reações intensas — medo, raiva, tristeza, dissociação — que não pertencem ao “agora”, mas a um “então” que continua ativo.


A analogia com o emaranhamento

De forma metafórica — mas funcionalmente muito precisa — podemos dizer que:

  • o “eu” do presente

  • e o “eu” ferido do passado

ficaram ligados por uma correlação persistente.

Tal como no emaranhamento quântico:

  • não há comunicação consciente,

  • não há viagem no tempo,

  • mas há uma resposta automática correlacionada.

O presente continua a reagir como se precisasse de consultar o passado para saber como sobreviver.


O desemaranhamento quântico

1. O que mantém o emaranhamento?

Duas partículas ficam emaranhadas quando:

- foram criadas no mesmo processo quântico (ex.: decaimento, interação forte, colisão),

- e o sistema está muito bem isolado do ambiente.

Enquanto isso acontece, o estado quântico é não separável:

∣Ψ⟩≠∣ψ1⟩⊗∣ψ2⟩|\Psi\rangle \neq |\psi_1\rangle \otimes |\psi_2\rangle∣Ψ⟩=∣ψ1​⟩⊗∣ψ2​⟩ 


2. Como ocorre o desemaranhamento?

O desemaranhamento acontece principalmente por decoerência quântica, que é:

a perda do caráter quântico devido à interação com o ambiente.

Exemplos de interações que quebram o emaranhamento:

- colisões com outras partículas,

- interação com campos eletromagnéticos,

- radiação térmica,

- medições (observações),

- ruído ambiental.

👉 Basta uma dessas interações não controladas para degradar ou destruir o emaranhamento.


Porque o tempo, por si só, não cura

Costuma dizer-se que “o tempo cura tudo”. A neurociência mostra que isso nem sempre é verdade.

O trauma não se dissolve com o tempo porque não está corretamente situado no tempo psicológico. Para o sistema nervoso, o perigo ainda parece atual.

Enquanto o corpo não reconhecer que a ameaça terminou, continuará a responder como se estivesse a acontecer agora.


Curar não é apagar — é desacoplar

Aqui a analogia torna-se especialmente fértil.

Curar o trauma não é apagar o que aconteceu.
É desfazer a ligação automática entre o passado e o presente.

É permitir que a memória exista, mas sem comandar:

  • as emoções,

  • as reações corporais,

  • as decisões do agora.

Na linguagem da psicologia, isto chama-se integração.


Técnicas que ajudam a “desfazer a ligação”

A ciência tem vindo a desenvolver métodos eficazes para esse processo de desacoplagem:

  • Hipnose regressiva e transpessoal - ajuda o inconsciente a libertar o peso de certas memórias.

  • EMDR – ajuda o cérebro a reprocessar memórias traumáticas e a integrá-las como passado.

  • Terapias somáticas – libertam respostas de sobrevivência presas no corpo.

  • Mindfulness informado sobre trauma – cria espaço consciente entre estímulo e resposta.

  • Psicoterapia narrativa – devolve sentido, sequência e identidade à experiência vivida.

  • Reconsolidação da memória – mostra que memórias podem ser reativadas e transformadas em contextos seguros.

Todas estas abordagens têm algo em comum:
👉 criam um novo contexto estável onde o sistema nervoso aprende que já não precisa de reagir como antes.


Um olhar mais humano (e talvez espiritual)

O trauma persiste não porque somos fracos, mas porque algo em nós ficou a proteger-nos. Alguns traumas são até programações positivas para evitarmos certos riscos de vida. Por exemplo as quedas ajudam-nos a andar com mais cuidado. E até algumas vacinas, que são eventos traumáticos biológicos artificiais, servem para nos imunizar para toda a vida de certos patogénicos.

Curar não é combater essas programações.
É escutá-las, agradecer-lhes e mostrar-lhes que alguns perigos já passaram.

Tal como na física, o emaranhamento dissolve-se quando o sistema entra em contacto com um ambiente mais estável.
Na vida humana, esse ambiente chama-se: presença, segurança, relação e sentido.


Conclusão

Talvez o trauma não seja o passado a invadir o presente.
Talvez seja o presente que ainda não conseguiu libertar-se totalmente do passado.

E talvez curar seja isto:
permitir que cada momento presente volte a ser inteiro,
sem fios invisíveis a puxá-lo para onde já não precisa de ir.

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