Viciados


Desde o pão ao açúcar, passando pelo trabalho, compras, internet, notícias, futebol e apegos emocionais até aos mais comuns vícios do café, álcool, tabaco e medicamentos, todos somos dependentes de algo ou alguma coisa na nossa vida que nos limita e controla grande parte de que fazemos.

É muito confortável apontar os traficantes e os toxicodependentes de drogas pesadas como a cocaína ou a heroína como os grandes culpados da nossa sociedade em matéria de alienação por meios químicos mas, todos nós, afinal, temos graves dependências. Experimentem tirar a algumas pessoas a internet, as compras, o álcool, o futebol ou afastar alguém do seu relacionamento amoroso, durante algum tempo e verão o mesmo comportamento de ressaca e fúria assassina de um drogado pesado.

Pão

Descobri recentemente que a farinha de trigo é um opiácio, uma substância alcalóide que provoca habituação e dependência. Os peptídeos opióides, formados durante a digestão do trigo, estimulam recetores opiáceos no cérebro (os mesmos da morfina e de drogas como a heroína), gerando efeitos similares como compulsão, estímulo excessivo do apetite e dependência por alimentos com trigo.

Eu sou um viciado em pão. E ainda não tinha percebido.

E tenho um amigo que enriqueceu com uma panificadora. Custa-me ainda vê-lo como um traficante.

Açúcar

Esta substância que está presente em grande parte dos alimentos que ingerimos diariamente, desde os bolos aos refrigerantes, dos rebuçados aos chocolates, dos iogurtes aos gelados é igualmente viciante e provoca o mesmo tipo de dependência das drogas pesadas.

Uma pesquisa realizada por cientistas da Universidade de Queensland, na Austrália, revela que os efeitos do açúcar no cérebro são parecidos com aqueles provocados pelo consumo de drogas como a cocaína.
A indústria dos refrigerantes (carregados de açúcar) movimenta um dos maiores negócios da atualidade e uma das maiores verbas de publicidade dos media, aproveitando a nossa fraqueza na recusa ou redução do seu consumo e ignorando as descobertas da ciência moderna. Podemos dizer que são traficantes legais, certo?

Uma pastelaria é basicamente uma "sala de chuto" para viciados em açúcar e trigo. Será?

E uma coca-cola será uma dose de "seringa" a tomar diariamente de preferência várias vezes ao dia?

Eu, por exemplo, reconheço o meu vício em doces e até costumo dizer que como pasteis de nata às escondidas de mim próprio.

Comida processada

Muita comida processada contém substâncias que podem criar habituação. Sal, açúcar e farinha de trigo são alguns desses ingredientes. A indústria alimentar é também um grande negócio que procura o lucro e nem sempre os princípios éticos de respeito pelo consumidor são seguidos.  Recomendo que investigue este tema e procure ingerir alimentos o mais naturais possível.

Trabalho

Um amigo meu costuma contar-me a história de um amigo dele, viciado no trabalho que, marca férias com a família nas caraíbas por uma semana e ao fim de dois dias já não consegue mais ficar sem fazer nada e regressa ao trabalho. 

A principal razão deste tipo de comportamento poderá resultar de um vício em Adrenalina e outras hormonas internas que explicarei adiante.

Adrenalina

Ah! mas eu não como pão nem açúcar, nem bebo álcool e também não fumo e tal... e por isso não sou um viciado.

Errado. É que o nosso corpo também produz "drogas". A Adrenalina, por exemplo, que é produzida pelas nossa glândulas suprarenais, sobretudo quando entramos em stress, serve para preparar o organismo para realizar grandes feitos. Localizadas acima dos rins, produzem também outras hormonas com o Cortisol, Aldosterona, Androgénios, Noradrenalina e Dopamina, muito importantes para o metabolismo do organismo e composição da circulação sanguínea. Claro que estas substâncias, em situações de produção exagerada, também provocam habituação.

A Adrenalina estimula o corpo, para que consiga reagir de forma mais rápida às situações de perigo. Alguns dos principais efeitos da Adrenalina são:

Aumentar os batimentos cardíacos;

Acelerar o fluxo de sangue para os músculos;

Ativar o cérebro, deixando-o mais alerta, com reações mais rápidas e estimulando a memória;

Aumentar a pressão arterial;

Acelerar a frequência da respiração;

Abrir os brônquios pulmonares;

Dilatar as pupilas, facilitando a visão para ambientes escuros;

Estimular a produção de energia extra, pela transformação do glicogénio e gordura em açúcares;

Diminuir a digestão e a produção de secreções pelo trato digestivo, para poupar energia;

Aumentar da produção de suor.

Conheço muitas pessoas viciadas em Adrenalina. A face mais visível desta dependência é na prática de exercício físico pesado regular. Ou num trabalho de muitas horas por dia de elevado stress. E ficam anos presas nesta dependência alegando que é uma dependência boa. O problema é quando têm que parar. As ressacas são muito parecidas com todos os outros tipos de vícios.

Uma das consequências muito atual da dependência da Adrenalina é a procrastinação. Habituados a anos de stress contínuo e pesado, quando a vida por alguma razão nos força a parar, como férias ou layoff, ficamos com aquela apatia em que não apetece fazer nada, sem energia, deixando tudo para fazer na última hora de forma a criar, inconscientmente um pico de stress, e assim podermos receber a nossa dose e acalmar a ressaca.

O nosso sistema endócrino segrega uma multiplicidade de "drogas" internas, todas com a sua função benéfica (aliás como todas as substâncias aditivas externas tomadas com moderação) mas todas, também, com a sua função de dependência, sobretudo em situações de segregação prolongadas e extremas.

Dopamina, serotonina, endorfina e ocitonina

Mais conhecidos como o quarteto da felicidade estas quatro hormonas estão sempre ativas no nosso organismo. São elas que nos dão o prazer de viver em multiplas situações. Mas se elas se desequilibram, o corpo pode reagir com insónia, stress, aumento de peso e, é claro, mau humor. Também podem levar à desmotivação e à tendência a adiar tarefas e compromissos, e em casos graves de baixa desses neurotransmissores, as pessoas podem até desenvolver depressão.

Emoções

Assistir a uma série da Netflix ou a uma telenovela é um exemplo de dependência emocional que já quase todos experimentámos. Sexo, sangue, traição e suspense em doses elevadas e prolongadas são os ingredientes de quase todas estas séries, aliás como alguns filmes, embora estes se ficassem pela duração máxima de um hora e meia a duas horas. As séries podem extender-se por longas horas e dias e o turbilhão de hormonas segregadas pelo nosso corpo durantes esses períodos de tempo provoca estados de dependência e consequentes estados de ressaca e lutas desesperadas pelas doses de reposição.

Os noticiários tóxicos que ouvimos repetidamente todos os dias também podem exercer em nós o mesmo tipo de dependência mas... a toxicodependência de um relacionamento íntimo amoroso é provavelmente o expoente máximo das drogas emocionais que levam, em muitos casos, até a situações limite de homicídio e suicídio. 

Drogas oficiais

Apesar de tudo o que acima foi explicado, os organismos oficiais apenas reconhecem como drogas, substâncias e serviços de venda livre ou proibida, no caso de drogas pesadas. O álcool, o tabaco, o jogo, o sexo e mais recentemente o telemóvel, as redes sociais e as compras são algumas das "drogas" leves oficias reconhecidas e com protocolos estudados de reabilitação. 

Nesta categoria estão também os medicamentos, sobretudo para doenças crónicas, que podem ser de venda livre ou prescritos por um médico que irá acompanhar por muito tempo o seu "toxicodependente" legal de forma a que não sofra muito dos seus efeitos secundários. Dado que o nosso corpo não foi desenhado para levar com a injeção de tóxicos prolongados, alguns medicamentos provocam muitas vezes novas doenças obrigando o doente a novos medicamentos numa espiral sem fim de dependência da farmácia por muitos e longos anos. Diz-se que a medicina moderna aumentou a esperança de vida, eu diria que auementou também a longevidade das doenças crónicas pois é aí que está uma boa parte do negócio.

Depois temos as outras, as mais pesadas, punidas com multas e prisão, para viciados e traficantes, que vão desde a canabis e o haxixe até à cocaína e heroína, 

Quando apontamos o dedo aos drogados e traficantes da nossa sociedade é essencialmente para esta última classe que olhamos. Multamos e prendemos estes criminosos e assim dormimos mais descansados. Mas se abrirmos um pouco a nossa consciência vemos que o problema é muito mais vasto e toca-nos a todos, todos os dias. O nosso corpo também gera as suas drogas. E os nossos comportamentos inconscientes derivados de uma vida acelerada, competitiva ou leviana levam-nos, por vezes, a algumas overdoses.

Reabilitação e cura

Tomar drogas para curar toxicodependências não é a melhor solução. Exceto em casos limites de desequilíbrio pontual.

A reabilitação e cura de vícios mais eficaz é a que usa ferramentas como a psicoterapia, hipnoterapia, meditação, medicinas orientais e sobretudo acompanhamento afetivo e amoroso.

As drogas, internas ou externas, são uma fuga consciente ou inconsciente de nós próprios, da nossa essência e só na paz e no amor conseguiremos reencontrar-nos.

A diabetes, por exemplo  pode ser apenas uma fobia ou vício de açúcar. E a insulina pode ser uma forma muito deficiente e primitiva de tratar o problema pois só se foca na consequência. A causa pode ser emocional, psicológica ou mesmo de ordem espiritual.

A genética é muitas vezes apontada como a razão de muitas destas dependências mas também hoje a nova ciência estuda estes assuntos de uma forma mais holística e descobre que os genes também podem ser modificados pela mente e pelo ambiente. Pesquise por epigenética.

Tu não és um computador e, querendo, podes mudar muitos dos teus comportamentos aditivos diários e tornar a tua vida mais leve e feliz, tanto no trabalho como no lazer.


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